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sexta-feira, 8 de julho de 2011

O Mundo é Pequeno, Piracicaba Menor Ainda (Parte II)

Bar Noiva da Colina. Foto: monitornews.blog
                     Mas falando ainda dos tempos em que predominavam a falta de compromisso e a relativa responsabilidade, as horas de alienação eram vividas também no balcão da lanchonete Daytona, que ficava na esquina das ruas Moraes Barros e Boa Morte.
                    O que destacava o ambiente era a decoração feita com uma réplica de carro de corrida tipo Fórmula 1, vermelho, fixado no alto, na parede dos fundos.   
                    Os mais bêbados chegavam logo depois das 8 da noite para beber muita cerveja, stanheguer e, de vez em quando, comer batatas fritas.
                    De lá, muitas vezes, só saiam após a meia noite, completamente nocauteados nos assentos traseiros dos carros, sob as vibrações do rádio em alto volume.  
                    O DJ da moda era o Big Boy, da Rádio Mundial AM 860 KHz (Rio de Janeiro), que iniciava suas apresentações com o clássico “Hello Crazy People!!!”
                    Em Piracicaba, Atinilo José comandava o programa Varandão da Casa Verde, na Rádio Difusora, onde também trabalharam meus primos Roque De Lello e Arthêmio De Lello.
                    Para quem não sabe, Roque e Arthêmio eram filhos de Olanda e João De Lello, irmã e cunhado do meu pai; ambos foram preteridos numa questão de herança.
                    Aos desavisados como eu, era então surpreendente, mas muito surpreendente mesmo, ouvir no rádio, as músicas que se referiam ao que fazíamos em alguns momentos.
                    Assim, por exemplo, quando criança, depois que eu e alguns colegas chegávamos de um passeio pelo matagal, existente no final da Rua Ipiranga, era bem esquisito escutar “O que você foi fazer no mato Maria Chiquinha?”.
                    E no ônibus, a caminho do Ginásio Jerônimo Gallo, era desconfortável sentir que aquelas músicas e notícias, emanantes do rádio portátil do motorista, postado entre o para-brisa e o painel, tinham algo a ver conosco.
                    As questões mal resolvidas de herança começaram logo depois do falecimento do meu avô José Carlos Zocca, em 1943.
                    Mas nem tudo era sofrimento. Uma das gratas recordações que trago da infância é a de quando tomei a minha primeira limonada.
                    Isso aconteceu na casa da vizinha da minha avó Amábile Pessotto Zocca. O menino Paulo Zaia era um daqueles que brincavam conosco nas ruas. E um dia, quando chegamos suados à sua casa, a mãe dele, dona Lídia Zaia, tirando da geladeira uma vasilha com água, fez uma inigualável e inesquecível limonada.
                    Dona Lídia deve hoje estar com quase cem anos.  
                   

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O Mundo é Pequeno, Piracicaba menor ainda







                   Em 1969 o Bar Noiva da Colina, que fica na esquina das Ruas 13 de Maio com a Alferes José Caetano (foto) pertencia à família Casale.
                    Eles tinham acabado de chegar do bairro Dois Córregos e eram pessoas bem simples. Os pais da Neile, Genésio, João José e Rosalina já tinham idade avançada, portanto quase não participavam das atividades comerciais dos filhos.
                    Genésio e Neile, na parte superior do sobrado, recebiam apostas do jogo do bicho, enquanto que João José e Rosalina mais atendiam à freguesia do boteco.
                    No carnaval de 1971 ou 72 João José e eu nos dispusemos a viajar de carona para o Rio de Janeiro. Saimos daqui com algumas coisas somente e de caminhão, que pegamos perto da ESALQ, chegamos até a Dutra. Antes eu havia vendido um rádio portátil ao Genésio a fim de que com a importância recebida, pudesse ao menos pagar alguns maços de cigarros.
                    Não nos demos muito bem na excursão ao Rio. Quase sem dinheiro nenhum, passamos a primeira noite na praia de Copacabana, onde com um cobertor improvisamos uma barraca tosca.  
                    No dia seguinte seguimos para ver o Cristo Redentor e com muito esforço, chegamos lá no topo, com praticamente todas as forças exauridas.
                    João José, por ter a personalidade um tanto quanto que incongruente, achava que podia queimar toras e toras da canabis sativa Linus sem se alimentar e por isso e também por outras, acabamos nos desentendendo.
                    Ainda lá em cima do morro conversei com um grupo de travestis, que num fusca branco, desceria para o asfalto. Chegado da descida parti imediatamente para a estação rodoviária, onde tomei um ônibus para São Paulo.
                    João José teve problemas e do Rio telefonou para a irmã Neile que, se não me engano, pagou um táxi para buscá-lo.
                    Bom, eu sei que daqueles momentos em diante não mais nos vimos e o fim de João José não foi dos melhores. Por causa da toxicomania esteve internado por várias e várias vezes em hospitais psiquiátricos.
                    Anos depois soube que ele se envolveu num latrocínio, praticado contra um motorista de táxi em Santa Maria da Serra, tendo sido condenado a muitos anos de prisão.
                    Mas voltando ao Bar Noiva da Colina, ele ficava vizinho de uma agência dos correios, onde hoje funciona, se não me engano um restaurante.
                    Naquela pequena agência de esquina trabalhava, na função de carteiro, um senhor que se chamava Hermínio Harder, pai do falecido Carlos Augusto Bottene Harder.
                    E foi esse senhor, Carlos Augusto Bottene Harder, que residia à Rua Napoleão Laureano 164, que no dia 27 de Dezembro de 2007, tentou nos matar a tijoladas, na esquina das Ruas Fernando Febeliano da Costa e Napoleão Laureano.
                    Hoje em dia é o moço Gabriel Donizete Bottene Harder, (filho do finado Carlão), residente no mesmo endereço do pai, recebedor de auxílio material e proteção dos parentes funcionários públicos, que tem a função de nos infernizar a vida.  
                     

                     

                   
                   
                     
                   

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O coquetel Molotov

E chegava mais um final de semana. A noite surgia amena encontrando Van de Oliveira, no quarto, preparando-se para sair.

Diante do espelho, Grogue ajeitava a calça, a camisa esporte e, com um retoque final o penteado.

Duma gaveta sacou o frasco de desodorante, exagerando a aspersão nas axilas. Transcorria fevereiro de 1975, quando o governo em Brasília, era ainda exercido pelos generais.

Grogue ao caminhar pelo quarto teve a convicção de ter acertado na escolha do calçado que usaria para badalar naquele sábado: entre um par de tênis e outro de coturnos, escolhera o segundo.

Bem vestido o camarada deu três passos adiante, parou, voltou-se e de longe mirou sua figura no espelho. Estava tudo de acordo e nos conformes. As botas, apesar de amarradas firmemente nas canelas, deixavam os pés folgados.

Metendo no bolso um maço de Hollywood e uma caixa pequena de fósforos, ele sentiu-se pronto para a noitada.

Desceu a escada, abriu a porta da rua, entrando com habilidade, no Karmann Guia 1972, vermelho, estacionado defronte ao sobrado.

Ao volante acendeu um cigarro, pondo-se depois em marcha. Ele ouvia com atenção o ruído baixo, lento e grave que saia dos escapamentos abertos, daquele motor 1500.

Van de Oliveira dirigindo numa velocidade reduzida, bem devagar, quase parando, rodeou a praça central, notando o afluxo inexpressivo de pessoas.

Depois de parar defronte ao bar do Bafão, onde havia mesas de sinuca, ele desceu, mas não fechou à chave a porta do carro.

No boteco três ou quatro duplas jogavam bilhar. A névoa cinza da fumaça dos cigarros turvava o ambiente, ao mesmo tempo em que o cheiro impregnava-o.

Van acomodou-se a uma das mesas postadas perto do balcão, pedindo cerveja. Depois de atendido ele notou, assustado, que dois travestis caracterizados como prostitutas se aproximaram dele.

Convidados a se sentar e a tomar cerveja eles não quiseram, dizendo, entretanto que Lola Door, a dona do bar situado na esquina próxima, queria falar-lhe.

Van bebeu com muita calma e depois, avisando ao Bafão que iria ao bar da Lola, saber o que ela queria, saiu a pé. Com uma vintena de passos ele entrou no boteco da cafetina velha.

Defronte ao balcão havia um aglomerado de bebedores falantes. A mulher comandava a caixa registradora, enquanto que seu companheiro, que a tirara da zona do meretrício, alguns anos antes, atendia os pedidos do pessoal.

Ao ser avistado pela mulher, Grogue percebeu que ela fazia-lhe gestos, para que se aproximasse.

À presença do recém-chegado, um silêncio inesperado, dominou o ambiente. Acercando-se da mulher, Van de Oliveira Grogue, curioso ao extremo, para saber o que ela tinha a lhe dizer, foi atingido, de repente, por uma pancada tão forte na face esquerda, que o derrubou ao chão.

Lola dera-lhe no rosto com a costa da mão esquerda. Tentando levantar-se o rapaz não conseguia entender o motivo do ataque.

Alguns risos sobressaiam do burburinho que ressurgia no aglomerado. Dois homens se aproximaram e pegando-o pelos braços puseram-no pra fora do boteco.

“Que filhos da puta! Só pode ser intriga dos veados” – pensou Grogue.

Com a visão turva de ódio, ele entrou no Karmann Guia, foi até o sobrado, pegou uma garra vazia de vinho e voltando ao carro dirigiu-se ao posto de combustível da redondeza.

Não havia movimento. O frentista estava só e ouvia algo no rádio a pilhas; ele não estranhou quando o homem que acabara de chegar, pedira-lhe que enchesse a garrafa com gasolina.

Grogue fechou o frasco com uma rolha; ao invés de pagar o preço, disse ao homem que perdera a carteira; que morava a dois quarteirões de distância e que voltaria logo em seguida, para o acerto.

De nada adiantaram os protestos do frentista. Van de Oliveira entrou rápido no carro deu a partida e, acelerando com força, desapareceu.

Estacionando defronte ao sobrado, ele subiu rápidamente a escada indo direto pro quarto. Duma gaveta, da velha cômoda, ele tirou a camiseta amarela que reduziu a trapos.

Enlaçando o gargalo da garrafa com o pano, desceu ás pressas a escadaria, entrando afoito no carro vermelho.

Sentindo muito ódio, ele pisou fundo no acelerador; não se importou com as imprecações murmuradas pela vizinhança irritadiça.

Grogue parou longe do seu alvo. Talvez uns cinquenta metros. Ele desceu do carro com a garrafa na mão esquerda. Ao se aproximar do boteco precisava umedecer, com a gasolina, o trapo do gargalo.

Van tirou a rolha, vertendo o liquido aparado no pano. Entretanto, os gestos bruscos, por estar muito tenso, fizeram com que a gasolina vazasse em demasia, molhando-lhe o braço e a mão esquerda.

Fechando a garrafa com a rolha e firmando o pano, ele sacou do bolso a caixa de fósforos. Naquele momento uma dúvida o parou: lançaria o projétil contra o chão, nos pés da turba, ou contra as garrafas de bebida, enfileiradas nas prateleiras, acima e atrás da cabeça da agressora?

A distância entre ele e a turma que bebia não impediu que o cheiro da gasolina o denunciasse. Os homens perceberam e iniciaram movimentos de pânico.

Com receio de ser impedido, antes de alcançar o seu objetivo, Grogue acendeu o estopim. Mas as chamas passaram-lhe para o braço e a mão encharcadas de combustível.

Sentindo a queimadura, ele soltou a garrafa que explodiu aos seus pés, na sarjeta.

Cercado pelos bêbados Grogue quase foi linchado. Uma viatura da guarda levou-o ao delegado, que depois de um interrogatório breve, mandou-o ao pátio interno da delegacia.

Sentado numa escada fria, observado pelos detentos, que o olhavam das janelas gradeadas das celas, Van viveu uma das madrugadas mais frias e tristes da sua vida.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O Chupa-cabras tupinambiquence

Donizete Pimenta, o besouro rola-bosta tupinambiquence foi durante algum tempo considerado o chupa-cabras da região. Já lhes contei algumas passagens dessa figura, mas não custa nada mostrar-lhes o que de inusitado tem ainda a tal personagem.

O sujeito era aparentado de Gabrielzinho, o babá sonso, que por ser muito vagabundo, dizia preferir cuidar das crianças, ao invés de trabalhar na prefeitura, feito gente grande.



As suspeitas de que Pimenta também seria um pedófilo, desejoso de se aproveitar das filhas da atual amásia, foram substituídas pela certeza de que o “chupa-cabras” queria mesmo esperar que elas crescessem para então, livre de qualquer possibilidade de acusação, que pudesse enquadrá-lo entre os abusadores de crianças, compensar o tempo que perdera esperando-as crescer.



Na verdade Donizete Pimenta e Gabrielzinho tinham algo que os unia: a tara por crianças. Ambos desempregados chegaram a pensar em fazer, num barracão, que fora propriedade do Charles Bronchon, uma creche onde poderiam dar vazão às doenças que os acometia.



Os crimes praticados por Donizete Pimenta e Gabrielzinho eram do conhecimento das autoridades do município, mas por alguma falha burocrática, os castigos ainda não tinham se concretizado.



Por terem sido gerados por pais irmãos entre si, vieram à luz, tanto Gabrielzinho como Donizete Pimenta, com deformações genéticas perceptíveis nesse tipo de comportamento aberrante.



A própria amásia de Donizete Pimenta também era fruto de cruzamentos consanguíneos, razão pela qual a descendência toda era condenada à demência.



Os altos índices de imbecilidade e idiotia, existentes em Tupinambicas das Linhas, tinham como causa principal o cruzamento entre parentes.



Então era comum ver muita gente babenta puxando carroças pelas ruas sujas da cidade abandonada.



Diziam as más línguas que até mesmo o prefeito da cidade conhecido como Jarbas, o caquético testudo, tinha ascendência consanguínea. Isto é, que seus pais eram parentes entre si. Isso justificaria a calamidade que se transformou a sua administração.