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segunda-feira, 5 de março de 2012

Salário Modesto


                 Van Grogue não era calçada portuguesa, aquela obra de arte feita para ser pisada, mas a população de Tupinambicas das Linhas cria que para ser feliz deveria melindrá-lo sempre.
        Essa mania, de calcar o bêbado, nascera com a vovó Bim Latem a chefe de gabinete do prefeito Jarbas, o caquético testudo, espalhando-se ao longo do tempo e pela cidade toda.
        Eu já lhes contei inúmeras passagens sobre a tal vovô Bim Latem. Ela era fã de Herivelto Martins e Dalva de Oliveira; quando entrou para o funcionalismo público – onde trabalhou durante cinco anos e já está aposentada há cinquenta -, comprou com o primeiro salário que recebeu toda a discografia dos artistas.
        Por ter o Van Grogue uma desavença com Luisa Fernanda, Célio Justinho que envolveu também o prefeito Jarbas, o vereador Fuinho Bigodudo e o deputado Tendes Trame, a vovó Bim Latem desejou, com todas as suas forças morais, poderio econômico e tráfico de influência, que o tal pingueiro fosse morar numa barrica a ser instalada em qualquer rua da cidade.
        Numa das reuniões que aconteceram ao redor da piscina de Luisa Fernanda e Célio Justinho, onde também faziam churrasco e ensaiavam as apresentações da Banda Funileiros do Havaí, a vovó teria dito sobre o futuro do Van de Oliveira:
        - Vai morar na rua entre os cães; de lá “meterá o pau” em nós e em nossas obras administrativas. Quando ouvir um sino sentirá vontade de perambular pelas vias, becos e vielas.  Esse catinguento terá muita sorte se alguém se compadecer dele e o tirar da sarjeta.
        Apesar de todo esse sortilégio lançado contra Van de Oliveira, a justiça agiu antes, tendo descoberto falcatruas imensas nas licitações da prefeitura tupinambiquense.
        Jarbas, sua mulher, Fuinho Bigodudo e até mesmo Tendes Trame, tiveram de explicar na polícia como conseguiram tamanho acúmulo de bens móveis e imóveis, com os salários modestos que recebiam.
        Para muitos a carreira política desses senhores havia chegado ao fim.

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O Ensaio

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Hely Kopter e as Revistas

             Hely saiu de casa naquela manhã ensolarada de maio e, premido pela preocupação de pagar as contas, considerou a urgência em conseguir um trabalho.
             Tupinambicas das Linhas era uma cidade limitada, não oferecendo ocupação remunerada, que mantivesse a esperança de progresso dos seus jovens.
             Entretanto o moço, por ter a teimosia como faceta que lhe compunha a personalidade, pensou que talvez pudesse encontrar algum possível empregador anunciante de vagas, no Diário de Tupinambicas.
             Para obter a publicação, Hely caminhou até a banca de jornais e revistas, instalada na estação rodoviária da cidade.
             O trânsito de ônibus, automóveis e pessoas, limitava-se aos raros embarques e desembarques, ocorridos geralmente de hora em hora.
             Hely aproximou-se dos jornais e com uma folheada bem rápida, pôde perceber que o grande recheio das páginas de anúncio, se limitava aos proclamas dos comerciantes de imóveis.
             Sob o olhar reprovador da funcionária que de uma cabine em separado, postada na entrada, falava ao telefone, chamando a atenção de alguém supostamente do outro lado da linha, Hely notou que fizera algo reprovável. Ele deveria ter comprado o jornal e não folheá-lo devolvendo-o depois.
             Temendo que sua gafe provocasse queixas verbais audíveis e humilhantes vindas da mulher, Hely resolveu esperançá-la com uma possível realização de venda.
             Ao invés de retirar-se, entrou até a seção onde estavam expostos os gibis.
             Os impressos coloridos do Superman, Batman, Zorro, Mickey, Pato Donald, e Tio Patinhas fascinaram o moço. Ele precisava usufruir, com mais calma, o prazer que lhe proporcionava aquelas histórias todas.
             Mas como, se estava sem dinheiro?
             Aproveitando o instante em que a mulher fazia o troco de um freguês, Hely, com um gesto rápido, assim como num passe de mágica, inseriu na cintura, sob a camisa, um gibi do Superman e outro do Batman.  
             Esperando que seu rosto esfriasse e seu coração voltasse ao ritmo normal, Hely caminhou por entre as demais fileiras de publicações.
             Já perto da saída e ainda evitando o olhar condenador da funcionária, o moço ganhou a rua.
             Julgando estar numa distância suficiente dos olhares da comerciante, Hely sacou os gibis da cueca, passando a folheá-los.
             - E ai, comprou agora meu? – perguntou numa voz poderosa o Van Grogue que passavam pelo furtador.
             Notando que todos os olhares recaíam sobre si e não tendo como justificar a posse dos objetos, principalmente para a proprietária, que já vinha no seu encalço, Hely desfaleceu.
             Enquanto esperavam pela vinda do resgate os comerciantes do local sentaram-no numa cadeira de rodas. Hely foi levado de ambulância da Rodoviária até o hospital, onde foi atendido.    

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Ensaio




                                Naquele sábado de manhã Célio Justinho levantou-se com uma ressaca terrível. Ele, Adam Olly, o doutor Silly Kone e Edgar Sá, passaram mais de três horas bebendo o que conseguiram no bar do Bafão.
             Aos mal-estares da bebedeira, somavam-se a preocupação de Célio com o ensaio que ele e os integrantes da Bandadubo, fariam naquela tarde, no quintal da casa.
             - Luísa Fernanda! – gritou Célio assim que entrou no banheiro, vindo do quarto abafado – Onde está criatura, o sabonete dessa joça?
             Luisa Fernanda, na sala, falava ao telefone com a vovó Bim Latem, que a convidava para uma reunião a ser feita na segunda-feira à noite.
             - Olha, não sei – dizia Luisa Fernanda ao telefone.
             - Como não sabe criatura? Eu não mandei você comprar um novo lá no boteco ontem? – esbravejou Justinho, ainda cambaleante, no banheiro.
             - A senhora sabe muito bem que no banco o pessoal pega no meu pé, não é? E tudo por causa daquela oficina de um ano, que tive de fazer depois que a diretoria trocou as guias amarelas pelas verdes. Lembra-se daquela papelada que eu carimbava todos os dias? Então...
            - Mas que mané papelada Luísa? Deixa de ser burra. Eu quero um sabonete! – esgoelava Célio Justinho.
             A cachorra Poodle Magna que, deitada ao sol na borda da piscina, ao ouvir os gritos ressoantes pela casa, iniciou uma caçada às pulgas que mantinha no cangote. Usando a pata traseira direita ela coçava-se com sofreguidão.
             Ao perceber que não seria atendido, Célio resolveu ele mesmo procurar pelo objeto que precisava. Saiu e, abrindo com vigor maior do que o usual, a porta da despensa, apanhou o sabonete.
             Caminhando de volta, resmungando desaforos, ele quase caiu ao tropeçar no tapete fixado defronte a porta do banheiro.
             Por volta das 16 horas o pessoal da Bandadubo começou a chegar. Não vinham todos juntos, mas aqueles que aportavam primeiro paravam seus carros na frente da casa da Luisa Fernanda; meia hora depois havia oito veículos estacionados naquele trecho do quarteirão.
             Ao vozerio e aos ruídos dos instrumentos sendo instalados ao lado da piscina, se juntavam os latidos estridentes da Magna, agora completamente enlouquecida com a perda do sossego.
             Célio mandou vir cerveja e uma garrafa de pinga que deixou na mesa estrategicamente resguardada dos raios solares.
             Na bateria acomodou-se Silly Kone que, com toques ligeiros, testava o som das caixas. No baixo, Pery Kitto fazia vibrar as cordas grossas usando o indicador e o médio da mão direita.
             Na guitarra Billy Rubina que estreava uma palheta nova, para tanger as cordas de aço, disfarçadamente tentava também afastar Magna, que rosnando, buscava o pé direito do músico.
             No vocal, testando o microfone, estava Van Grogue, o biriteiro mais querido de Tupinambicas das Linhas.
             - Testando... 1,2. Teste. 1,2. Som... Som. 1, 2. Som... Som. Alô. Som. 1,2. Som – dizia Van de Oliveira, com a voz monocórdica, ao microfone encostado no queixo, logo abaixo do lábio inferior.
             Depois de longos e terríveis cinco minutos de teste do microfone Luísa Fernanda, completamente descabelada, adentrou o local onde se dava a reunião e disse:
             _ Mas que puta que o pariu é essa? Tenha a santa paciência Van! Pelo amor da sua pinga. Você está querendo torturar a vizinhança? Não é possível! Veja que nem pardal fica perto dessa zoeira. Para com isso porra!
             Sentindo-se vexado pela reprimenda que a mulher fazia ao companheiro, Célio Justinho tentou esfriar os ânimos da nervosa Luisa:
             - Calma, bem. Isso é praxe. Você sabe que os músicos têm esse hábito de testar os microfones. Nada mais que isso.
             - Pô! Mas o cara já bateu com os dedos na coisa, já assoprou, contou até dois, disse “trocentos” som e ainda fica nessa? Qual é Van? Está tirando com a minha cara? – gritou Luiza com o rosto todo avermelhado pela ira.
             As pessoas do quarteirão e os parentes mais próximos já sabiam que Luísa tinha mesmo esses rompantes irracionais. Alguns afirmavam que quando ela não tinha ninguém pra descarregar a raiva, acalmava-se varrendo as calçadas do quarteirão todo com a sua vassoura especial.
             Demonstrando certa insensibilidade às críticas lançadas Van continuou o teste:
             - Som... Som... Som. Teste, 1,2, som. Som. Som, testando. Som.
             Tomada por um acesso avassalador de histeria Luisa saiu do quintal arrastando tudo o que havia na sua frente. Algumas caixas de cerveja empilhadas ao lado da porta de correr, que separava o quintal e a cozinha da casa, ao receberem o choque causado pelo encontrão da “Irene Tupinambiquence”, começaram a desabar. Magna estava embaixo.
             Tomado por aquele seu instinto de goleiro, Van largando o microfone, deu um salto magistral fazendo uma espécie de ponte superfaturada, com a qual desviou o caixote que esboroaria o cocuruto da cadela.
             Luisa Fernanda percebendo o gesto heroico do biriteiro desmanchou-se em salamaleques de profundo respeito.
             - Van, me desculpa. Você é meu herói. – disse Luisa choramingando ao ir para a cozinha com a cachorra no colo. 
               
              Leia também O Kadafi Tupinambiquense.

domingo, 11 de julho de 2010

Muito milho pra poucos bicos

Tanto nas idas quanto nas permanências e voltas, os loucos da cidade cercavam suas vítimas. Era uma regra.

Os dementes compunham a seita maligna do pavão-louco e não admitiam a estadia de qualquer pessoa discordante da política corrupta do prefeito Jarbas, o caquético.

Como era do conhecimento geral, o prefeito, seus vereadores, o deputado estadual e federal, aproveitavam-se das licitações, para enriquecerem seus patrimônios particulares. Essa verdade era mansa e pacífica.

Tanto era assim que em Tupinambicas das Linhas uma única empreiteira ganhara mais de 45 concorrências públicas, em pagamento do capital que investira na campanha, que elegeu o prefeito Jarbas.

Praticamente não havia quem não recebesse um “presente” do prefeito ou dos seus correligionários. Essa atitude evitava as queixas, as reclamações e amenizava a derrota das demais empresas que se aventuravam a participar dos certames públicos.

Participar de uma licitação na prefeitura era o mesmo que jogar com as cartas marcadas. Se o partícipe não fosse da “panela” não teria a menor oportunidade.

Era assim que essa espécie de “casta” política governava a cidade por gestões seguidas, sem que a oposição, aliás, bem fraca, tivesse qualquer chance de ocupar o poder.

Na cidade a combinação entre as religiões pagãs e a política, formava a equação usada pela gente que ocupava os cargos eletivos, por mais de trinta anos seguidos.

Dessa maneira nem as denúncias de fraudes, contra o erário público, apesar de comprovadas, conseguiam sacar dos tronos intocáveis, os vendilhões da legalidade.

O chamado “progresso material” da urbe, na verdade, não passava de oportunidade aos responsáveis, tanto políticos, quanto técnicos, para acrescentar aos seus bens particulares, parte da riqueza que pertencia à cidade.

Então, obras voluptuosas tais como pontes desnecessárias, asfaltamento de ruas já calçadas e prédios destinados às repartições municipais, eram feitas assim como nos passes de mágica.

Em Tupinambicas das Linhas não se poderia dizer, com relação às verbas públicas, serem elas pouco milho para muito bico. Na verdade, o montante do dinheiro desviado era tanto, que se podia afirmar, sem medo de cometer engano, ser muito milho pra poucos bicos.

Se não fosse mesmo assim, então como explicar as reeleições seguidas, dos candidatos miseráveis, que durante suas vidas de pobres ingênuos, só conseguiram alcançar o maior destaque, quando se tornaram professores, de cursos preparatórios de vestibulares?

Esses políticos usavam a riqueza, desviada da população, na ativação e manutenção dos mecanismos repressores aos seus críticos. E a seita maligna do pavão louco, era um desses “aparelhos”, cujos membros cercavam tanto na ida, quanto na permanência e volta as suas vítimas.

Era bastante espinhoso suportar as atitudes insanas dos corruptos da cidade.

 

sábado, 10 de julho de 2010

O ESPELHO

Quando Van Grogue passava da conta nas biritagens, confundia tudo, como todo mundo sabe. Mas o baralhameto que fazia naquele julho já distante, causava desgosto intolerável em quem esperava dele um pouco mais de sensatez.

Van estava num estágio que misturava essa manta com Samanta e, sem chance com seu Sanches; temeroso que os crimes incendiários do PCC fizessem vítimas nos usuários das marinetes de Tupinambicas das Linhas, só andava a pé.

Mas durante as caminhadas ele se lembrava pesaroso do tempo em que tinha carro. Recordava-se do velho Corcel II desmilinguido, descorado, manchado e sem o gradil protetor do radiador, evocativo duma face banguela.

Grogue sempre foi um motorista impetuoso. Antes de sair, penetrava com vigor a chave naquele receptáculo frágil, girando com energia o instrumento. Depois que se sentava e, sentindo-se dono da situação, batia com força a porta do corredor.

Ele sabia que pra lhe dar sorte tinha que socar a peça no mínimo umas três vezes. Acelerava ao máximo o motor vetusto e disparava a buzina duas vezes antes da arrancada. "Era fogo na caixa d água!" sentenciara certa vez sua mãe barriguda.

Quando Grogue se penteava pela manhã naquele espelho quadrado do armário do banheiro, nunca supunha estar sendo vigiado por algum olho oculto.

Mas num belo dia percebeu que as notas que tomava nos velhos papeis guardados vinham sendo manifestadas por agentes da seita maligna do pavão-bem-louco.

Eram feedbacks negativos com os quais Van julgava quererem, os membros da seita impiedosa, impedi-lo de se manifestar.

Ora, Grogue podia ser tudo, menos estuprador e autista. Por isso sua expressão não poderia ser barrada nem mesmo sob o impacto duma cacetada no lado esquerdo do cocuruto.

Sem insulto à velha área do tio Broca, inexistiam motivos para impedimento justo; mesmo que o corte no couro cabeludo tivesse de ser costurado com dois ou três pontos.

Van Grogue realmente, quando o frio aumentava e tudo nele se contraia, ficava sujeito às lembranças do tempo em que sua velha e fofa mãe botava os três irmãos pra tomarem banhos juntos. Eram banhos coletivos e naquela situação em que todos se viam tal qual Adão e Eva no paraíso, a libido se manifestava.

Como o Grogue era mais velho, mandava sempre os mais novos pegarem o sabonete por ele, às escondidas, lançado ao solo. Essas atitudes feriram a suscetibilidade do Vermelho, um dos novos e fez dele um inimigo secreto do pobre Grogue.

Mas naquele julho Grogue extrapolara os limites viajando na batatinha e na maionese vencida. O infeliz misturava gaze com gás, gás com gasolina e Bahia com baia. Podia uma coisa dessas? "Ah... Capone vê se te emenda!" teria gritado uma vizinha já de saco cheio com os procedimentos ingênuos dele.

Grogue tinha consciência que as atitudes impeditivas da expressão do seu pensamento eram iguais a repulsa e negação do seu comportamento lá no banheiro. Tudo que vinha do Grogue suscitava aversão semelhante àquela havida durante os primeiros folguedos infantis debaixo das águas tépidas e vaporosas do chuveiro elétrico.

Ao entrar no boteco da tia Lucy Nada, Van encontrou a esperá-lo o Giam D. Bruce, Noecir Ponteiro e Narcíseo M. Artelo. O trio queria sacar-lhe o couro à semelhança do que faziam os caçadores aos jacarés, sapos e cobras.

Após deglutir a “dindinha” perguntou aos boquiabertos espectadores: "O que foi? Nunca viram não? Ao invés de cercar, não seria melhor me arrumar um emprego, um serviço?"

Depois de pagar o consumido Grogue saiu do boteco com uma idéia fixa na cabeça: tinha que saber tudo sobre a tal da morfologia flexional. Esse, daquele dia em diante, seria o canal.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Roubando a bola

Não quero ser chato, mas acho que a Argentina será a grande campeã desse mundial. É um palpite baseado na intuição e posso estar incorreto.

Entretanto os sinais que se observa levam à dedução de que o time do campeão Dom Diego Maradona tem muito mais probabilidade.

A seleção argentina faria conosco o mesmo que alguém ao se apropriar indevidamente da bola de um menino? Eu não duvido.

O selecionado portenho teria coragem suficiente para fazer igual ao usurpador que ocupa o lugar de alguém, aprovado num concurso público? Com certeza.

Teria estofo bastante o selecionado dos hermanos para agir semelhante ao elemento que, aproveitando-se da boa-fé e descuido das pessoas, se apropria dos seus bens? Sim senhor!

A seleção argentina seria capaz de ofertar a possibilidade de um vice-campeonato a outro time qualquer a quem tivesse judiado muito, durante bastante tempo? Nem duvide.

À semelhança das autoridades municipais, que se fazem de surdas aos clamores dos seus cidadãos prestantes, seria capaz o selecionado argentino de não ouvir os brados de que haveria seleção melhor? Sim senhor! Nem duvide.

Maradona é ou não é maior do que o Pelé?

Célio Justinho, depois de ensaiar exaustivamente à beira de sua piscina, resolve dar um baile no barracão da sua residência. Veja o que aconteceu.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Irritando Luisa Fernanda

Luisa Fernanda experienciava momentos difíceis naquele já distante princípio de janeiro. Diziam as más línguas que o banco em que ela trabalhava demitiria muita gente e que ela, considerada funcionária inábil, seria uma das que estavam na lista das demissões.

O estado emocional disfórico predominante na Luisa Fernanda contaminava os que viviam ao seu redor e por isso mesmo, naquela manhã de segunda-feira, Célio Justinho, ao notar os resmungos da parceira, achou melhor não dar-lhe um bom dia com aquele entusiasmo característico de quem tivera uma boa noite de sono.

Justinho lembrou-se que Luisa Fernanda tentava descontar no filho do barbeiro vizinho, os dissabores sofridos com a figura maligna. Realmente na noite passada a mulher, com identidade falsa, passara algumas horas na Internet dialogando com o menino.

Célio Justinho achava que Luisa Fernanda procurava atormentar o garoto para que ele brigasse dentro de casa, punindo dessa forma, o barbeiro malvado.

- Não vai comprar o pão e o leite hoje? - perguntou bastante tensa Luisa Fernanda ao Célio que, depois de escovar os dentes, ligara a TV.

Por ser o Célio dependente da Luísa Fernanda, fazia ele tudo o que ela mandava. E mal pudera acomodar-se para ver os telejornais matutinos, quando sentira os maus humores da mulher que o faziam mexer-se.

- Vai vagabundo, faça alguma coisa! Você pensa que minha vida lá no banco é fácil? Retardado mental! Faz dois mil anos que tenta tocar o hino do Corinthians e não consegue! Nem pra isso você presta!

Já passava das oito da manhã quando Célio entrou no bar do Maçarico. Num canto Virgulão, o homem que vendera de uma só vez, duzentas e sessenta e quatro máquinas de escrever pra Prefeitura de Tupinambicas da Linhas e que gostava de tocar cavaquinho pra periquito engaiolado ouvir, bebericava da sua segunda garrafa de cerveja.

Célio Justinho ao pegar os pães, embalando-os viu que também entrava no recinto o Van Grogue. Foi então que Virgulão disparou:

- Van Grogue carrapato de capivara tuberculosa; pó de bosta de urubu catinguento; coprofágico inaugural da maior cidade do estado de São Tupinambos. É verdade que você é adepto da coprofagia?

Van de Oliveira já estava atordoado e não pudera evitar o abalo maior que lhe produziu a detonação daquelas palavras.

Van Grogue aprumou-se, tirou um cigarro do maço e, com gesto exagerado, com a mão direita pediu o seu produto preferido. Então ele se voltou para Virgulão e se defendeu:

- Isso tudo não passa de brutalidade dessa gente incompetente. São pessoas paranóides; elas têm delírios de referência; são incapazes de fazer qualquer coisa. Essa turma só sabe falar mal de quem faz. Eles não conseguem produzir nada e por isso inventam essas grosserias pra desqualificar quem provoca a inveja neles. As indelicadezas são ditas pra desmerecer a quem sabe fazer.

Virgulão riu e convidou Grogue para sentar-se ao seu lado.

Célio Justinho pagando o pão e o leite que pegara, saiu apressado. Ele tinha que chegar rápido em casa, antes que esquecesse o que ouvira. Ele precisava contar logo pra Luisa Fernanda que Van Grogue era mesmo um besouro coprófago.