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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O Gorjeio

Van de Oliveira Grogue pisou com o pé direito, naquela manhã de segunda-feira, a soleira da porta do bar do Maçarico.

- Estou com glaucoma. Já não enxergo mais nada direito. A catarata desandou, o diabetes atacou e olha ai, estou cego. – enquanto falava Van aproximava-se do balcão, onde o solitário Maçarico apoiava o jornal estendido, em que lia as últimas notas policiais.

Maçarico pôde olhar atentamente para os olhos do seu mais tradicional cliente e então disse:

- Por que você não limpa as lentes dos óculos?

Gelino Embrulhano, o novo habitante da Vila Dependência, que se mudara há menos de um mês, no exato momento em que os dois homens miravam-se nos olhos, entrou no boteco.

- A conversa insana daquelas bocas loucas não para assim tão fácil. – falou Embrulhano vendo Grogue que tirava os óculos, limpando-os num guardanapo de papel.

- Mas não é que melhorou mesmo? – informou Van aliviado – Pô maneiro, mano olha ai.

- Maça, me vê ai uma branquinha quente e a loura fresca – pediu Embrulhano.

Maçarico já se acostumara com os jeitos dos clientes do bairro. Ele sabia, por exemplo, que Gelino não gostava de conversa mole, do henhenhém de gente desocupada.

- E ai Embrulhano, meu bom jovem, aquele pessoal conseguiu algum emprego? – perguntou Maçarico servindo o recém-chegado.

- Arrumaram nada. Ficam o dia inteiro sem mover uma palha. Só no garganteio, no gorjeio. É a bolsa família e a tal da bolsa escola que se encarregam de botar o feijão naquelas panelas. Se pelo menos aproveitassem o tempo pra aprender alguma coisa.

- Eu sei como é isso – reforçou Van Grogue – eles ficam girando em volta igual a cachorro querendo pegar o próprio rabo. Viram, viram e não saem do lugar.

- É uma tristeza. Estou desconfiado que o problema ali não seja falta de serviço. Ali a questão é de saúde mental – arrematou Embrulhano.

- O Donizete tem se consultado com o psiquiatra doutor Silly Kone, mas acho que não está tomando os remédios – informou o Maçarico, limpando o tampo do balcão com um guardanapo alvo.

- Eu não sei não, mas estou desconfiado que a solução para aqueles problemas todos talvez seja uma boa sova de couro – concluiu Van Grogue fazendo um brinde ao calor do dia que principiava.

Em uníssono, todos os demais presentes concordaram com a proposta do maior e melhor biriteiro tupinambiquense.

- Só pode ser falta de pancada! – gritou um menino que, parado defronte o bar, escutava a conversa daquela gente importante.

 

terça-feira, 18 de maio de 2010

Quem fala o que quer, lê o que não deseja

Quem fala o que quer, pode ler o que não deseja. Então é por isso que devemos ter muito cuidado com as palavras que proferimos, principalmente na rua.

E não é só na rua, não. Saibamos que vivemos em comunidade e que os vizinhos merecem respeito. Que a nossa antipatia não se transforme em palavras maldosas diuturnas, pois elas podem cristalizar-se em algo que não aprovaremos depois.

Todos precisam de consideração. Até o pior retardado da rua pode muito bem viver sem que o lembrem do seu estado. Mas não é mesmo verdade?

Por que é que você precisa passar todas as horas dos seus dias, das suas noites e madrugadas, falando que o sujeito é ladrão de Chevette e que joga pedras nos outros?

Mas não é mesmo desagradável ficar repetindo e repetindo, por cima dos muros, que o fulano catava papelão nas ruas e que agora ganhou na loteria e não precisa mais desse trabalho?

Então que tenhamos um pouco de sossego. Se necessário for recorramos aos médicos que podem nos acalmar os ânimos exaltados e confortar-nos com a sua boa arte.

Para tudo na vida tem um jeito bom. O conforto pessoal é importante para manter a saúde da mente e do corpo. Se não temos isso devemos buscar onde acharemos.

E depois tem mais, viu? Não é só o nosso conforto que pode estar comprometido. O nosso mau humor contagia as pessoas em volta, principalmente as crianças.

Portanto é salutar que possamos buscar ajuda de profissionais especializados. Isso fará bem não só para nós mesmos como para todos os que nos amam e nos rodeiam.

Que possamos então por um freio em nossa língua, sabendo que todas as pessoas que amamos não merecem presenciar, por tanto tempo, tamanho mau humor que não vai resolver nossos problemas.

A distimia tem tratamento. E que isso seja salutar para todos os familiares envolvidos.






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