Van de Oliveira Grogue pisou com o pé direito, naquela manhã de segunda-feira, a soleira da porta do bar do Maçarico.
- Estou com glaucoma. Já não enxergo mais nada direito. A catarata desandou, o diabetes atacou e olha ai, estou cego. – enquanto falava Van aproximava-se do balcão, onde o solitário Maçarico apoiava o jornal estendido, em que lia as últimas notas policiais.
Maçarico pôde olhar atentamente para os olhos do seu mais tradicional cliente e então disse:
- Por que você não limpa as lentes dos óculos?
Gelino Embrulhano, o novo habitante da Vila Dependência, que se mudara há menos de um mês, no exato momento em que os dois homens miravam-se nos olhos, entrou no boteco.
- A conversa insana daquelas bocas loucas não para assim tão fácil. – falou Embrulhano vendo Grogue que tirava os óculos, limpando-os num guardanapo de papel.
- Mas não é que melhorou mesmo? – informou Van aliviado – Pô maneiro, mano olha ai.
- Maça, me vê ai uma branquinha quente e a loura fresca – pediu Embrulhano.
Maçarico já se acostumara com os jeitos dos clientes do bairro. Ele sabia, por exemplo, que Gelino não gostava de conversa mole, do henhenhém de gente desocupada.
- E ai Embrulhano, meu bom jovem, aquele pessoal conseguiu algum emprego? – perguntou Maçarico servindo o recém-chegado.
- Arrumaram nada. Ficam o dia inteiro sem mover uma palha. Só no garganteio, no gorjeio. É a bolsa família e a tal da bolsa escola que se encarregam de botar o feijão naquelas panelas. Se pelo menos aproveitassem o tempo pra aprender alguma coisa.
- Eu sei como é isso – reforçou Van Grogue – eles ficam girando em volta igual a cachorro querendo pegar o próprio rabo. Viram, viram e não saem do lugar.
- É uma tristeza. Estou desconfiado que o problema ali não seja falta de serviço. Ali a questão é de saúde mental – arrematou Embrulhano.
- O Donizete tem se consultado com o psiquiatra doutor Silly Kone, mas acho que não está tomando os remédios – informou o Maçarico, limpando o tampo do balcão com um guardanapo alvo.
- Eu não sei não, mas estou desconfiado que a solução para aqueles problemas todos talvez seja uma boa sova de couro – concluiu Van Grogue fazendo um brinde ao calor do dia que principiava.
Em uníssono, todos os demais presentes concordaram com a proposta do maior e melhor biriteiro tupinambiquense.
- Só pode ser falta de pancada! – gritou um menino que, parado defronte o bar, escutava a conversa daquela gente importante.
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